Port Au Prince – Haiti

A pergunta que você deve estar fazendo agora é: O que esse cara foi fazer no Haiti?!?

Antes de começar, todavia, tenho que explicar que sempre tive curiosidade por lugares exóticos, inóspitos e inusitados. Aqueles que poucos – ou quase ninguém – vão. E essa escapada a Port Au Prince foi uma delas, digna para compor um dos capítulos do livro “Não conta lá em casa”.

Também, tenho que comentar que fui militar do Exército e que nos anos de 2004 e 2010 o quartel em que eu trabalhava enviou tropas para a Missão de Paz da ONU no Haiti.  Dessa forma, alguns colegas que participaram conheceram o povo local, dentre eles, o haitiano Gregory Joseph, que hoje é meu amigo.

Agora sim já posso responder sua pergunta!

Durante uma mochilada pela República Dominicana (clique aqui para ver o que fiz por lá), em razão de estar logo ali ao lado, mesmo sabendo dos perrengues que eu poderia passar, cogitei a hipótese de visitar o intrigante território haitiano. Entrei em contato com um grande amigo, que foi meu colega nos tempos do Exército e ainda estava em missão no Haiti, e perguntei o que ele achava da minha ida. Como resposta tive: “VOCÊ É LOUCO? NÃO TEM NADA PARA CONHECER AQUI. Mas mesmo que por uma insanidade sua resolva vir, me avisa!”. E assim foi. Avisei também o haitiano Gregory Joseph, que foi meu guia e anfitrião em Port Au Prince.

Para chegar a Port Au Prince, via terra, pode-se pegar em Santo Domingo, República Dominicana, um ônibus da empresa Capital Coach Line, que cobra US$ 40 pelo trajeto de 6 horas (ou US$ 75 pela ida e volta – valores de outubro/2012). Os ônibus são razoáveis e é oferecido um sanduíche e um suco durante a viagem.

Cruzar a fronteira entre esses dois países já é o suficiente para notar suas diferenças culturais e econômicas. Entre a saída da República Dominicana e a entrada no Haiti há um trecho de aproximadamente 1 quilômetro, que é “terra de ninguém”. A aduana do Haiti naquela borda é apelidada de Mad Max, em razão do conhecido tumulto e confusão. Consiste em apenas uma simples casa, em que um oficial de imigração faz as perguntas e decide pela sua entrada, ou não. Entrei no país sem maiores problemas.

Saída da República Dominicana
A nada sofisticada aduana do Haiti

Chegar em Port Au Prince é impactante. O trânsito é caótico. Não há placas de sinalização e os mais diversos tipos de veículos andam em qualquer direção. O som das buzinas é intermitente. Há gente por todos os lados. Notei muita gente vendendo roupas usadas, frutas e até mesmo carnes pelas ruas e calçadas.

O conturbado trânsito
Comércio nas calçadas de Port Au Prince

Gregory me esperava na rodoviária, junto com o piloto da moto que seria nosso meio de locomoção. Sim, os 3 na pequena moto!

Moto para 3! À esquerda, Gregory.

Meu primeiro destino em Port Au Prince foi a base militar brasileira – BRABATT, onde reencontrei meu amigo, vi um pouco do trabalho que o Exército desempenha por lá e visitei aquelas instalações.

Saindo da base militar seguimos para a casa do Gregory, na localidade de Delmas, onde seria minha hospedagem das próximas duas noites. Conheci seus pais e seus irmãos, que ficaram encantados com a câmera fotográfica que eu levava.

A família do meu amigo Gregory Joseph

Na manhã seguinte, logo ao acordar, tive a primeira lição de vida do dia: Gregory me perguntou se eu iria tomar banho. Respondi que sim. Então minutos depois retorna ele com um balde de água misturada com álcool gel, para desinfetá-la. “Está aqui seu banho, amigo!”. São essas situações que nos fazem refletir e agradecer pelo quão afortunado somos e pela vida confortável que temos.

Novamente saímos para rodar pela cidade, nos aventurando em nossa motinho, em meio aquele trânsito louco. Muito curiosa é a forma como os haitianos suprem a falta de transporte público. Eles utilizam o Tap-Tap, que são carros, camionetes e caminhões, geralmente muito coloridos, que conduzem a população para cima e para baixo. Existem muitos deles pelas ruas. Não é raro ver os tap-tap’s abarrotados de gente, carregando, inclusive, pessoas penduradas nas portas e laterais. O som excessivamente alto e o uso da buzina parecem ser itens obrigatórios.

Port Au Prince não tem muitos atrativos turísticos. Muita coisa se perdeu após o terremoto ocorrido em janeiro de 2010. Fomos ao Forte Jacques, de onde se tem uma boa vista da cidade.

De lá fomos à zona comercial, chamada de Marche de Fer (mercado de ferro). Absolutamente tudo é vendido por lá: alimentos, roupas, animais vivos, artesanatos e muitos artigos de Vodu, uma vez que é uma prática religiosa muito comum no Haiti, mesmo entre os católicos. Infelizmente não tenho muitas fotos de lá. Quando peguei a câmera meu amigo me advertiu: “aqui você não pode tirar fotos. A população não gosta. Vão atirar pedras em nós”.

Marche de Fer

No caminho para a parte central de Port Au Prince passamos por uma zona que me intrigou. Vi muitas mansões, camionetes importadas. Nem parecia o mesmo país. Então Gregory me explicou que é o bairro de Pétionville, habitado por integrantes do governo e grandes empresários, os quais ganham muito dinheiro vendendo água potável e tijolo para o resto da população. Triste ver essa gigantesca desigualdade social e, mais ainda, que muitos se valem da fragilidade do povo (mesmo com itens de necessidades básicas), para aumentar suas riquezas.

Chegando à zona central, na localidade chamada Champs de Mars (Campos de Março) é impossível não notas as trágicas consequências da catástrofe de 2010. Uma parte do prédio Palais National (Palácio Nacional) foi destruída naquela ocasião e quando estive lá (em outubro de 2012), o governo estava destruindo por completo. Logo em frente caminhei pela Place des Héros de l’Independence, Musée du Panthéon National, Grand Rue Artists e Musée d’Art Haitien, mas infelizmente estavam fechados.

Depois de rodar por praticamente toda a cidade, hora de voltar a casa, dormir e esperar o ônibus para Santo Domingo, que sairia no outro dia. Já no terminal de ônibus da Capital Coach, acompanhado do meu amigo, guia e anfitrião Gregory, chegava a hora da despedida. Estava contente em voltar a Santo Domingo são e salvo, levando na mochila importantes lições de vida. Era a primeira vez que eu via uma rodoviária onde todos pareciam estar contentes por partir.

Meu amigo, guia e anfitrião Gregory Joseph

Aproveito para novamente agradecer aos meus amigos Gregory Joseph e Gleriston Oliveira, por terem sido fundamentais para que eu pudesse conhecer esse país.

E essa foi minha passagem pelo Haiti. Ilha caribenha de gente sofrida e batalhadora, que mesmo com a escassez de recursos não desiste de viver em um mundo melhor. Não visitei praias lindas (como existem várias no norte do Haiti), tampouco atrações turísticas, mas sem dúvida foi uma experiência muito enriquecedora.

*Atualmente (2017) Gregory está no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, onde mora e trabalha. Imigrou para o nosso país com a ajuda de um amigo americano que fiz durante minha passagem pela República Dominicana. Contei a experiência que tive no Haiti e ele ficou impressionado. Decidiu então ir até lá conhecer Gregory e sua família. Fico contente em tê-los colocado em contato.
Rodrigo Siqueira

Rodrigo Siqueira

Gaúcho, advogado por formação, instrutor de mergulho e mochileiro por opção. Acredita no turismo simples, sem frescuras. Viaja não só para visitar lugares, mas também para conhecer diferentes culturas, interagir com o povo local e experienciar o novo. Não consegue mais não viajar. Sempre com um mapa à mão, pronto para escolher o próximo destino.
Rodrigo Siqueira

Related Posts

  • Guilherme Hoefelmann

    Cara, esse relato me lembrou do episódio do Bourdain no Haiti. Que experiência, man! Mandou muito bem em decidir encarar o lugar. Ri alto aqui com fronteira apelidada de Mad Max! hahahaha E a cara de assutada daquela criança de vermelho tá qualquer nota, né?! hahaha

    • Opa!! Que honra ser lembrado por um episódio do Bourdain… Valeu irmão! Realmente foi uma experiência que carrego na mochila da vida! Daquelas que você sabe que vai ser chacoalhado mas não sabe que é tanto. Valeu muito a pena. E sobre a criancinha de vermelho, foi só pra foto mesmo heheh ela tava sorrindo antes. Mas no “retrato” saiu apavorada! haha